Um cronista carioca na BBC – Ivan Lessa

Ivan Lessa em Londres, 1970. Foto cedida pela família

Quando o filho do escritor Orígenes Lessa e da jornalista e cronista Elsie Lessa resolveu ir embora do Brasil pra sempre, muitos de seus colegas duvidaram da promessa. – Pra sempre é muito tempo, Ivan… E lá se foi o inventor do “Gip-Gip-Nheco-Nheco” para a Londres, que já conhecia. Sua Copacabana existiria só na lembrança, e nas ótimas crônicas reminiscentes.

– Devo manter, por uma questão de saúde mental, essa sensação de ser um estrangeiro aqui, no meio de árvores, pedras e seja lá o que for. Os alienígenas somos nós! É isso mesmo: manter a sensação de ser um estrangeiro tem um lado muito saudável. Não há motivo nenhum para você ficar muito à vontade no mundo! Manter distância.

Era janeiro de 78, quando fez a declaração bombástica ao jornalista Geneton Moraes Neto, já morando em Londres, para onde se mudara definitivamente. O neto do pastor presbiteriano Vicente Themudo Lessa, o bisneto do escritor e gramático Júlio Ribeiro, autor do romance A Carne, escrevia, inventava. Escrever, lembrar. Era herança de família. Ivan, em Londres, eterno alienígena lembrando-se do Brasil.

Ivan Lessa, editor e um dos principais colaboradores d’O Pasquim. Criou “As Fotonovelas”, escreveu “Os Diários de Londres”, deu respostas debochadas aos leitores na qualidade de seu heterônimo Edélsio Tavares e com Jaguar, deu vida ao inesquecível e sacana ratinho Sig, símbolo do semanário. Pra pagar as contas escrevia crônicas semanais para a BBC Brasil, não raro falando do Brasil.

Para deleite de nossos leitores publicamos a crônica de Ivan para a BBC Brasil: “O Brasil e a guerra”, de 4 de março, 2003. Leia abaixo :

O Brasil e a guerra

O nome oficial da guerra no Iraque é “Operação Libertação do Iraque”. O nome das forças americanas e britânicas é “forças da coalizão aliada”.

Já flagrei apresentador de mais de um telejornal usando a tal “coalizão” para ser prontamente corrigido pelos jornalistas no Golfo Pérsico que só se referem às “forças americanas e britânicas”.

Mas eu me desviei do assunto como o mais perdido dos mísseis Scud. Eu me interesso pelo Brasil de Lula. 

Queria saber como é que vamos em matéria de guerra. Fucei, pois, avidamente a imprensa virtual brasileira afim de tomar conhecimento de que danos colaterais o conflito teria tido sobre o Brasil brasileiro do Fome Zero.

Com indizível alegria, fiquei sabendo que o programa Fome Zero ganhou subtítulo, ou melhor, slogan. Ele agora vem acrescido de “Nossa guerra é contra a fome.” Isso é formidável. 

Contanto, é claro, que não usem armas de destruição em massa, ou mesmo modesta, contra aqueles a quem o processo se dirige. Slogan sempre resolveu 80% de nossos problemas. “Brasil: ame-o ou deixe-o”, “A pausa que refresca”, por aí. 

Lá está: nosso governo, segundo as folhas, aproveitou a guerra do Iraque para acelerar a definição de suas propostas tributária e previdenciária. Não, eu não entendi. Não, não minta, leitor e ouvinte, você também não entendeu.

Não teve nada a ver, espero, com o “início das hostilidades”, conforme dizem os jornalistas de escol, mas no mesmo dia em que bombardearam Bagdá, realizou-se um churrasco na Granja do Torto com direito a karaokê de integrantes do governo. 

Vários ministros, além de Gilberto Gil, cantaram, entre outras coisas, Rosas não falam

Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional, interpretou um sentido Velas do Mucuripe, tendo sido aplaudido por Lula, que, infelizmente, não cantou. 

Talvez por estar exausto depois de todas as suas “vãs tentativas” (foi nossa imprensa que disse) de “evitar o conflito”, conforme acentuou em discurso transmitido em cadeia nacional por rádio e televisão. 

Em sua fala, o popular presidente, depois de lamentar o início dos combates, prometeu cuidar das fronteiras brasileiras, do abastecimento, da saúde e prometeu apoio aos brasileiros que vivem na região afetada pelo conflito.

Tranquilizou o país dizendo que pontos estratégicos do território nacional, especialmente portos, aeroportos e fronteiras estão tendo a sua segurança reforçada.

Durmam em paz. Eu ainda não consigo.

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