Domingo, um naco de infância no olho dos adultos – Ricardo Soares

Não tem tensão nenhuma. Tem tesão de domingo de manhã com o sol entrando nas chanfras da janela e algum radinho de pilha ligado ao longe enquanto a toalha molhada se pendura no parapeito  e um cheiro de pão dormido na chapa irradia a vontade de tomar  café forte .
 
Aquele mix de shampoos deu uma coceira na cabeça e a cortininha do box com seus motivos de sapinhos está tão desgastada e velhota que mal protege o banho quente que vai inaugurar essa lida . O edredon laranja caiu no chão e nem se repara se a poeira é do bem ou do mal porque o calor matinal espantou as alergias e as rinites e os pássaros  passaram adiante o serviço de despertador.
 
Dois ou três copos de vinho estão no assoalho. Meio bebidos , meio fumados, largados antiqüíssimos como os nacos de pizza em pratos mortos que não foram devorados na noite de sábado.  As visitas foram sem se despedir ? quando é que se devolve o filme na locadora ? temos que gostar de Sally Field?
 
Alongamento diante da janela ao lado da rede desbotada onde jaz o gato gordo que ri. A bicicleta está largada na sala pois na garagem os larápios levam os espelhos . Ontem várias pilastras ficaram marcadas do amarelo horrível do carro. Economizar pra funilaria pois se fosso no Rio seria lanternagem.
 
Há um estranho catálogo dentro do jornal dominical que anuncia as cidades exóticas do planeta. Dars El Salaam,  essa é a escolha quando o avião passa no horizonte e um barulho de lata batida faz-se ouvir três andares abaixo.
 
Ainda há sono pelo apartamento e ninguém pensa na cozinha , na louça ou no que fazer para o almoço. Uma porção de imãs na geladeira anuncia que um bom yakisoba pode ser a solução dos problemas. Mas ninguém aqui gosta de repolho. Ah, mas tudo bem . Ninguém gosta de repolho, do sindico , do governador e todo mundo anda olhando torto para o presidente. Nem por isso vamos deixar de esticar o corpo no sofá, olhar o cão gordo que mendiga o passeio e pedir pra ele dar um tempo que mais tarde quem sabe ganha uma volta no quarteirão. Sentem-se algumas gramas a mais se acomodando na cintura. É o peso do domingo que se encaixa enquanto uma nuvem de algodão desenha um naco da infância no olho dos adultos.

Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

6 comentários em “Domingo, um naco de infância no olho dos adultos – Ricardo Soares

  • 25 de março de 2019 em 16:47
    Permalink

    Bela surpresa ler o texto do amigo querido Ricardo Soares no seu Rapsódia Brasileira, Simão!
    Gostei desse retrato esticado do domingo.

    beijos a vocês
    Dinah

    Resposta
  • 26 de março de 2019 em 11:50
    Permalink

    O olho se abre e passeia na casa, num domingo que está acordando.

    Resposta
  • 26 de março de 2019 em 11:58
    Permalink

    O olho passeia na casa num domingo que está acordando. Gostei!

    Resposta

Deixe uma resposta para Rosangela Guerra de Andrade Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *