Rezem pro velho Alma – Mário Bortolotto

No tempo dos meus pais as mulheres tinham funções muito bem definidas. Elas lavavam a roupa, faziam a comida e limpavam a casa enquanto os homens estavam fora trabalhando e garantindo o sustento (?) da casa. Então veio todo o lance da emancipação feminina. E a emancipação só foi possível (toda a luta das feministas a parte) porque inventaram a máquina de lavar por exemplo. Imaginem um mundo sem máquina de lavar roupa. A máquina de lavar libertou a mulher do tanque. A máquina de lavar libertou a minha mãe do tanque. Hoje uma jovem mulher que não viveu essa época pode até dizer: “que se foda. O homem deveria ir pro tanque”. Bom, é fácil falar isso agora depois de toda a emancipação, mas não era assim no tempo dos nossos pais. Foi a máquina de lavar que começou tudo, podem ter certeza disso. E a mulher não precisou mais ir pro tanque e começou a ir pra outros lugares. E muitos homens se sentiram ameaçados por todo o tempo que a mulher estava ganhando. E a mulher começou a assumir lugares na sociedade que antes eram destinados apenas aos homens. E foi a máquina de lavar que ofereceu o start dessa possibilidade. Mas a verdade é que os homens (mesmo os mais machistas e que gostavam de ter as mulheres em lugares muito bem definidos até pra se sentirem mais seguros) deviam agradecer ao inventor da máquina de lavar. Pois com o advento dela os homens também não precisavam mais da mulher pra lavar a sua roupa. O homem moderno tem sua própria máquina de lavar e lava sua roupa. Tem o seu próprio micro-ondas e prepara sua comida. Alguns como eu tem até o seu foreman grill e prepara os seus bifes e sanduíches de queijo. Em resumo, o homem moderno já não precisa da mulher pra cuidar da sua vida. O homem moderno não precisa cuidar da vida da mulher. A emancipação na verdade veio pros dois e não apenas pra mulher. Então hoje em dia se um homem quiser ficar com uma mulher e vice-versa, é apenas por que os dois estão muito a fim de ficar juntos e não é mais um jogo de opressão e subserviência. Eu, particularmente gosto muito disso. Eu não entendia muito bem porque a minha mãe tinha que ficar lavando roupa no tanque e gostei muito quando o meu pai comprou uma máquina de lavar pra ela, embora ela não tenha se adaptado muito bem àquela modernidade e ainda ficou muito tempo lavando a roupa no tanque. Ela colocava a roupa na máquina e depois tirava e esfregava tudo de novo no tanque. Ela achava que a máquina não fazia direito. Acho que ali também havia uma ideia de que a máquina estava roubando uma função dela. E ia ficar algo do tipo “se essa merda dessa máquina fizer o meu serviço, vão descobrir que eu não sirvo pra mais nada”. Minha mãe demorou pra entender as mudanças do seu tempo e que elas poderiam na verdade ser benéficas pra ela. Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso é que hoje me sinto muito bem com minha máquina de lavar, meu forno micro-ondas e meu foreman grill. Definitivamente não preciso de nenhuma mulher na minha vida. Paradoxalmente eu diria que preciso muito de mulher na minha vida, porque sem uma mulher me sinto pela metade. Mas eu preciso dela como alguém que também não precisa exatamente de mim. E os dois ainda assim insistem que é preciso ser “dois” sem funções definidas. Nenhuma invenção genial vai conseguir separar esses dois. Há sempre algo muito mais forte que une um homem e uma mulher. E foi a máquina de lavar que tornou possível que ambos tivessem a total compreensão disso. Então se há um santo pra quem devemos rezar todas as noites é esse tal de Alma J. Fischer que dizem que inventou a máquina de lavar. Ele é o Cara. Como diria Paula Toller, “os outros são os outros e só”. Porra, consegui terminar toda essa elucubração maluca citando Kid Abelha. Sou mesmo um cara esquisito. Mas pelo menos hoje eu sei que uma mulher só vai ficar comigo se ela tiver muito a fim. Ela não precisa de mim pra porra nenhuma. E isso me proporciona uma sensação muito boa. Estamos na verdade todos livres. E vai dizer que isso não é du caralho?
Valeu, Velho Alma.

Mário Bortolotto é um ator, diretor, dramaturgo, escritor e compositor brasileiro.

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