A São Paulo de todos nós – Simão Zygband

Chove forte na São Paulo e a visão que tenho aqui do apartamento do nono andar onde moro é de uma cidade que, de uma hora para outra, armou temporal de raios, dando fim a um longo período de estiagem.
Um alívio para a população que convive, neste inverno do mês de julho, com a secura do ar e níveis insuportáveis de poluição.
Carros rasgam as ruas emitindo gases tóxicos. Pessoas viram zumbis que vagueiam pelos semáforos desta grande cidade pedindo moedas para as drogas. É o crack, devastador.
São Paulo não é para amadores. É para fortes . A convivência é em um cotidiano complexo e competitivo, de relações humanas psicóticas. Os anos 2000 nem chegaram aos seus primeiros 20 anos, e as muitas coisas dão calafrios. 
Cresci no bairro judeu do Bom Retiro, um gueto formado nas imediações da estação de trem, que abrigou os imigrantes sobreviventes da segunda guerra mundial. Eles chegaram ao Brasil no pós-guerra, desembarcando no porto de Santos e, para chegar a São Paulo, utilizaram a via férrea para acessar a metrópole. Pensavam em um mundo novo.
O Brasil, de fato, se tornou a terra das oportunidades, longe do holocausto e dos horrores praticados pelos nazistas. Meu pai, por exemplo, conseguiu sair “ileso” fisicamente do genocídio de Hitler que, em 1939, invadiu sua terra natal, a Polônia e dizimou grande parte de sua família.
Nada como o calor dos trópicos para curar feridas.
Meu pai vinha remoendo seus traumas do pós-guerra. Dos seus, só havia sobrado uma irmã e alguns primos. Não falava a língua.
Mesmo assim, se encantou pela minha mãe, uma judia brasileira, nascida em uma cidade do interior de São Paulo, cujos pais tinham vindo ao Brasil antes da segunda guerra.
Sou o resultado de uma relação que uniu contradições. Ele europeu, judeu, comunista e ateu, com uma judia brasileira, espírita e, de alguma forma, despolitizada.
Na minha casa, no bairro judeu do Bom Retiro, quem diria, tinha sessão espírita. Minha mãe, de linha kardecista, era uma espécie de “guia espiritual”, que recebia “entidades” como a Mãe Catarina, um índio de outrora ou ainda um caboclo. Tudo bem brasileiro.
Religiosamente, uma vez por semana, se reuniam na minha casa, tias e casais de amigos dela, que iam ouvir o que estes espíritos tinham a dizer sobre o futuro delas. Óbvio que meu pai, absolutamente descrente, ironizava o espiritismo da minha mãe, dizendo: “ela está lá recebendo as alminhas (sic)”.
Enfim, foi neste ambiente amistoso, porém bastante diverso (e por que não dizer, controverso) que comecei a dar os primeiros passos e me preparar para enfrentar as coisas da vida.

Simão Zygband é jornalista e um dos editores do Rapsódia Brasileira

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