Vou te catar cagando – Ricardo Soares

Pode crer que o ar tinha um cheiro de ovo frito porque chegava a hora da janta e a mulherada suava na frente do fogão ou molhava a barriga na pia. Panelas de pressão chiavam com feijão ralo dentro e se ouvia a algazarra da molecada que corria atrás de um pneu velho. Na rua de baixo o guincho de um ônibus freando na frente do ponto. Gente descia fedendo, louca por banho. Outros corriam para o boteco secos por um goró para abrir o apetite. E no barraco ao lado se ouviam gemidos que vinham da televisão. Novela das sete.
 
Na casinha lá no fundo do quintal, banheiro improvisado, quase a céu aberto, Décio se refestelava na privada. Esparramadão ele respirava fundo e se aliviava. Não sabia se era o grosso ou o fino mas os seus intestinos sempre foram problema. As dores sempre lhe renderam suor , sofrimento e, na hora da vazão difícil , um alívio inenarrável.
 
A casinha-banheiro erguida no capricho com boas tábuas ainda não tinha telhas. De forma que quando chovia aquilo virava um pastiche.Mas logo logo com o serviço andando bem ele haveria de ter grana para poder cobrir aquela miséria e poder fazer o seu santo cocô com mais sossego ainda. Mas ficar ali sentado na privada a céu aberto tinha lá os seus encantos. Com o calorão que vinha fazendo ele podia apoiar as costas nas tábuas e ficar olhando para cima onde se contavam sempre aquela meia dúzia de estrelas quase sem graça que cismavam em pintar naquele céu de periferia.
 
Oh alegria bendita,oh santo Cosme e Damião, que doçura fazer cocô a céu aberto com aquele cheiro de ovo frito entrando pelas narinas. Tinha vezes que a ideia do Décio ia mesmo muito longe, para o fundão de sua infância quando o cheiro de fogão de lenha do interior avisava a hora da janta. Era então chegada a hora de parar de correr atrás das galinhas – ah, tão quentinhas quando a gente punha nelas – ou hora de apear dos pés de jabuticaba ou pitanga que viviam carregadas o ano todo. 
 
Ficar ali sentado no privadão dava uma saudade danada das coisas boas. Décio não parava de ficar olhando seus joelhos fracos e bicudos . Balançava ora um, ora o outro. Nunca os dois ao mesmo tempo pois sua coordenação motora não dava para tanto. Habilidade com os pés e com as mãos nunca foi com ele. No máximo quando acordava bem um sábado de manhã ele fazia boa presença jogando de beque no time da vila. Mas se acordava mareado fazia vexame e era obrigado a sair logo de campo antes que fosse tirado a tapa pelo Zelão, técnico severo e gritão.
 
Na verdade o Décio era meio moloide . Suas pernas só corriam bem e sempre quando tinham que fugir da polícia. Aí sim, felino e tinhoso, escalava muros, galgava telhados, fugia mais rápido que preá assustado pelos terrenos baldios. Para a polícia Décio conseguia ser quase invisível. Daí que ganhou uma certa moral . Nunca pela valentia mas pela agilidade o que , cá entre nós, não tinha grande mérito já que os policiais que davam ronda ali no pedaço eram quase todos balofões, gente fácil de driblar. Mas o que vale é que ele driblava. Chegava até a abusar da boa sorte.
 
Sabonete cheiroso. Sabonete cheiroso escorrendo no meio dos peitos da Zari . Era nisso que ele estava pensando quando o auto-falante da igreja evangélica começou a chamar os fiéis para o próximo culto. Ele andava era cabreiro com aqueles crentes que nunca regulavam direito o som daquela joça. O som daquelas músicas chatas e da voz do pastor nordestino sempre chegava ardida. Incomodava e chegava a cortar a onda em hora que não devia. Teve um dia que ele estava ali gostoso em cima da Zari , quase se acabando, quando o pastor começou a falar de pecado, inferno, Belzebu. Pronto. Brochada geral. Décio na verdade só foi se recompor no dia seguinte. Por que será que este deus dos crentes enchia tanto o saco dele? 
 
Na verdade – e ele tinha vergonha de dizer isso – o Deus dos crentes, aquele dos salmos ,dos gritos e dos exorcismos, deixava ele cabreiro. Preferia um Deus mais brother , uma coisa assim mais chegada que encostasse ali do lado da mesa do bilhar e puxasse um lero falando da vida. Aí aos poucos , na moral, ia convencendo o sujeito de que Jesus era um cara legal e que a vida de tirar o que é dos outros não tinha muito a ver. Décio queria mesmo era um Deus de camiseta, um Deus que calçasse chinelos e tomasse uma cervejinha de vez em quando. Um Deus que desse risada e que conseguisse uma aliança com todo mundo na boa, na moral. 
 
E olhando a estrela mais forte – que porra seria aquela estrela ?- Décio esvaziou mais um pouco a carga fétida dos intestinos. Esfregou uma mão na outra e começou a cantar baixinho um pagode esperto que ele andava compondo. Um pagode de intenção, uma coisa que quando tivesse pronta a Zari haveria de curtir. Na verdade Décio não sabia era tocar nada. Nem surdo , tamborim, cuíca. Mas tinha a manha do verso,sabia ser bom com as palavras. E quando estivesse tudo redondo na sua cabeça o Maninho tava no pedaço para isso mesmo. Haveria de saber colocar um som legal naquela composição. Décio tinha uma vaga ideia da melodia mas Maninho haveria de fazer o resto no capricho.
 
Os versos do Décio empacavam mesmo depois de um tal “por favor”. Se fizesse uma rima com “fazer amor” repetia o amor do verso de cima. E ele não gostava mesmo dessa história de “fazer amor”. Isso é coisa de viado. Ele preferia dizer trepar. Era mais natural, tinha mais o cheiro dele, o jeito dele. E Zari não era nega de “fazer amor”. Era nega forte e fornida pra trepar em cima mesmo. Encaçapar, montar, eta nega boa de gozar.
 
E no pagode que empacava , na vontade de comer torresmo e beber cachaça amarelinha o Décio ia pensando quando ouviu de longe uns gritos abafados. O mormação tava deixando ele mole, mole. Estava vendo a hora que ele ia dormir ali na casinha. Foi quando pintou um susto súbito, daqueles de deixar a gente com as tripas na mão e o coração caindo da boca. A porta da casinha abriu de uma porrada só e três, três neguinhos magros, três neguinhos sangue ruim apareceram berrando . Pegaram o Décio sentado na privada e foram mandando palavra :
— Eu te disse, te disse filho da puta que não marcasse com a gente .
— Vacilou , dançou ….
— Agora cumé que é ? vai ser valente ? vai botar banca ?
— Branquelo filho da puta !
— Ele come a Zari !
— Pensou que ia deixar nós na merda né ?
— Queria ficar com o melhor né ?
— Ninguém passa a gente pra trás …
Décio quase sem fôlego. O negrinho mais magro , o olhar mais apertado chegou bem perto dele, pegou o colarinho, chacoalhou e disse :
— Eu te disse mano mas você não botou fé … eu disse que ia te catar cagando !
     
Afastou-se um passo, tirou da calça o 38 , mirou no meio da testa e foi. Nem tempo para suspiro ele teve. E quando o corpo desabou para o lado direito e se esparramou, sujo de sangue e cocô pelas tábuas, todos eles descarregaram os canos em cima daquela maçaroca e deram as costas devagar para a cena do crime. A cachorrada latiu muito. Mas não mais do que dois minutos. Depois, pode crer, o cheiro de ovo frito foi-se misturando ao de bife. Estava quase na hora da janta.

Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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