Quando a barbárie toma conta – Simão Zygband

Obra de Sérgio Ferro

Rapsódia brasileira não nasceu para isso. Queria apenas divulgar coisas bonitas, como uma linda tela de um artista plástico ou deslumbrantes fotografias de diversos lugares do mundo. Era só para falar das belezas da vida.

Mas, também, não pode se calar diante de fato tão repugnante, mostrando a estupidez humana em seu estágio mais primitivo, incensado por forças sinistras.

Temos que conter as bestas-feras que existem dentro de alguns seres humanos, antes que seja tarde demais.

Impensável uma pequena tropa do Exército brasileiro sair às ruas de qualquer cidade deste país para chacinar, através de fuzilamento, com 80 disparos, um veículo, fosse lá qual fosse, mas onde havia uma família, com uma criança dentro.

É muita falta de noção que agentes do Estado cometam tamanha tolice, grotesco erro de avaliação. O que pensavam estes senhores (se é que pensavam), pagos com o dinheiro público? Que o menino sentado no banco traseiro do veículo os recebesse à bala? Que o jovem pai assassinado ao volante, ante o olhar de seu filho, músico, negro, enfrentasse uma tropa? O que justificou desferir 80 tiros senão a insanidade coletiva?

Não existe explicação para isso. É muito menos explicável do que dois rapazes com a mente alterada, entrarem em uma escola em Suzano, na Grande São Paulo, e cometerem um massacre contra 10 jovens estudantes. Aqueles estavam loucos, evidentemente, como enlouquecem milhares de civis. Mas quando te dão a permissão para portar um armamento do Estado, o que esperar. Houve um enlouquecimento coletivo da tropa? Exige-se dos agentes públicos um mínimo de discernimento.

Não é possível que o dinheiro do contribuinte, já tão escasso na mesa dos brasileiros, seja destinado para efetuar fuzilamentos a céu aberto. Mesmo que fossem traficantes, suponho.

É de se imaginar, portanto, o que se passa dentro das quatro paredes daquela instituição. Que tipo de formação foi transmitida a uma dúzia de militares que saíram às ruas, pagos pelo dinheiro público, para despejar uma carga descomunal de disparos contra uma família de inocentes.
Isso precisa ter um paradeiro.

Nós, como sociedade, temos que encontrar saídas para a violência. Temos que dominar as bestas-feras que foram liberadas, sabe lá por quais sinistras forças.


Simão Zygband é jornalista e editor do Rapsódia Brasileira

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