Rodapés da História

Por Daniel Brazil

O craque

Aristides Juvenal dos Santos, o Arizinho, foi o jogador de futebol mais promissor surgido no bairro do Benfica. Lateral direito habilidoso e com muito fôlego, aos 17 anos foi escalado para o time principal do Sport de Juiz de Fora. “Comparável a Djalma Santos!”, arriscou um comentarista d’A Tribuna. A família orgulhosa convocou o bairro inteiro para sua estreia no velho estádio Procópio Teixeira, num clássico contra o Tupi, tradicional rival.

Foi a carreira mais rápida do futebol brasileiro. Aos dois minutos, fez um gol contra, tentando cortar um escanteio. Aos dez cometeu um pênalti, sendo expulso de campo. O Tupi goleou.

Execrado pela torcida, repudiado pelos próprios irmãos, Arizinho fugiu da cidade. A última vez que foi visto vendia picolés em Copacabana, em 1983.


A arma secreta

Antonina Dolores era a caçula das três irmãs mais afamadas da zona de meretrício de Santana do Livramento, na fronteira com a Argentina, no ano de 1816. Quando os soldados de Artigas ocuparam a vila ela não fugiu, como boa parte da população.

Sua contribuição na resistência aos invasores é inestimável. A beleza sensual de Nina, como era conhecida, provocou mais baixas nas tropas invasoras que os soldados do Exército brasileiro. A sífilis ajudou, claro.


O entomólogo

Alexandre Nemésio Brownson (1870/ 1942) dedicou toda sua vida à entomologia. Famoso por descobrir, classificar e catalogar mais de 200 espécies, várias vezes homenageou professores e colegas ao nomear um novo artrópode.

Todos estranharam quando, na volta de sua última excursão à Amazônia, batizou uma espécie desconhecida de aranha com o nome da ex-esposa, com quem não falava há mais de quinze anos. Picado, não resistiu ao potente veneno, vindo a morrer de complicações respiratórias.


O eletricista de cinema

Inácio de Lima Neto era apaixonado por cinema. Nascido na favela do Buraco Quente, em São Paulo, cresceu ajudando o pai eletricista. Depois de muitos choques, conseguiu uma vaga numa equipe de filmagem.

Liminha, como era chamado, tornou-se um nome requisitado nas produções da Boca do Lixo, em São Paulo, nos anos 70. Trabalhou em pornochanchadas, em documentários, em filmes de época. Chegou a aparecer como figurante em duas ou três produções.

Certo dia Liminha teve a mão esmagada pela queda de uma grua, em pleno set de filmagem. O técnico de som gravou tudo. O editor utilizou seu grito de dor e os gemidos subsequentes para uma famosa cena de crucificação.

Os críticos detestaram a cena, alegando que os sons eram muito exagerados, pareciam falsos. Liminha, desgostoso, abandonou o cinema.


O catador de diamantes

O velho Antônio das Almas, neto de quilombola e garimpeiro, passou a vida a peneirar cascalho na beira do rio Bagagem, lá nos confins das Geraes. Sonhava com o grande diamante, que nunca surgiu. Vez ou outra, muito de vez em quando, relampeava um xibiu no fundo da peneira.

Certo dia, ao matar uma galinha para o almoço, viu faiscar nas entranhas da ave uma pequena gema. Atraída pelo brilho, certamente a galinha engoliu a pedrinha, que ficou retida no papo.

O velho Antônio passou a noite pensando no ocorrido, e ao alvorecer tinha um plano infalível. Mapeou todas as propriedades ribeirinhas da região, e começou a furtar as galinhas mais papudas. Nas primeiras vinte achou outra “joia”, o que o deixou animado. Afinal, era um resultado muito melhor que o de meses rachando o lombo na beira do rio.

Antônio das Almas morreu na prisão, após ser pego em flagrante roubando galinhas de um juiz. É até hoje lembrado como o maior ladrão de galinhas da região.


Daniel Brazil é roteirista, escritor e diretor de TV. Mantém o blog “FÓSFORO“, sobre literatura, música e uma pitada do resto de tudo.

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