Nelson Cavaquinho, a flor e o espinho.

O policial Nelson, que em suas rondas noturnas a cavalo, acabou por pisar em folhas secas no Morro da Mangueira, era caboclo meio triste. Graças à má influência de novas amizades, perdia a Força Pública um gentil agente para as noites e para o Samba. Esse ex polícia vai desenvolver uma forma de tocar violão sem paralelo na música brasileira.

Os amigos, Cartola e Carlos Cachaça, não gostavam quando ele, por falta de dinheiro e trabalho, vendia seus sambas. Guilherme de Brito foi seu mais frequente parceiro. Eram como flor e espinho. E se era triste, seus sambas eram tristes, ele sabia. Aponta-se certa tanatomania em suas músicas. O último degrau da vida, o espelho onde via suas mágoas.

Mas, vivendo no morro foi feliz a seu modo. Vivia tranquilo porque quando morresse alguém haveria de chorar. Durvalina, sua última companheira. Nelson Antônio da Silva, filho de músico da banda da Polícia Militar, trocou o cavaquinho pelo violão que tocava com polegar e indicador. Sua alma gêmea, o mecânico Guilherme de Brito, boêmio e seresteiro, que conheceu em 1946.

O sol sempre brilhará, queimando a semente do mal. Esse caboclo vai compor belíssimos sambas, vai beber e fumar. Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro gravaram alguns de seus sambas. Quantas vezes subiu o morro cantando, o mesmo sol lhe queimando. E assim foi se acabando. Morreu numa madrugada de fevereiro de 1986, aos 74 anos, vítima de um enfisema pulmonar.


Juízo Final – Nelson Cavaquinho (1973)

Amor Que Morreu (Nelson Cavaquinho / Roldão Lima / Gilberto Ferreira) com Elizeth Cardoso, 78 RPM, Gravadora: Todamérica, Ano: 1953

Texto e pesquisa de Sergio Papi.

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