J’veux du soleil

Por Angelina Peralva

J’veux du soleil, documentário que François Ruffin et Gilles Perret lançaram na França inteira no último mês de março, em cinemas associativos e às vezes até mesmo ao ar livre, é um registro importante do movimento dos Coletes Amarelos, os Gilets jaunes. A filmagem foi feita em seis dias, em dezembro de 2018, sem dinheiro, quando o movimento ainda estava começando. Os dois diretores têm uma história no cinema militante – Perret no leste e Ruffin no norte do país.

François Ruffin é o diretor de Merci patron!, road movie sobre trabalhadores condenados ao desemprego pela mudança de fábricas para o leste da Europa – onde os salários são mais baixos e os custos de produção, portanto, mais competitivos. O filme recebeu o prêmio de melhor documentário na 42ª cerimônia do César, em fevereiro de 2017. Em 2016, ano em que foi lançado, vendeu mais de 500 mil entradas de cinema.

Em junho de 2017, Ruffin foi eleito deputado por Amiens com apoio de uma coalizão inédita da esquerda que reuniu a France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon, o Partido Comunista Francês, Europe Ecologie les Verts e a candidata local do Partido Socialista. Alcançou uma ampla vitória (55,97% dos votos), derrotando o candidato de Emmanuel Macron, que havia ganho o 1° turno. Prometeu durante a campanha exercer um mandato revogável a qualquer momento, desde que houvesse vontade expressa por 25% dos eleitores de sua circunscrição, e remunerar-se com um salário mínimo (atualmente 1521,22 € brutos mensais), em lugar dos 7200 € que recebe um deputado.

J’veux du soleil é um registro importante das palavras e dos rostos de uma França rural e pobre – pobre a um ponto difícil de se imaginar. Gente para quem a precarização do trabalho assalariado tornou difícil comprar comida no fim do mês. Gente reduzida a recorrer aos “Restos du coeur”, esses restaurantes caritativos criados pelo comediante Coluche em 1985; ou a procurar comida na rua, nas latas de lixo. Aquecer-se no inverno tornou-se impossível com a explosão dos preços dos derivados do petróleo. Para comprar querosene e alimentar caldeiras, há que se contrair dívidas impagáveis.

Mas o filme é também um registro das razões pelas quais, quatro meses depois de iniciado, o movimento não se encerrou. A rede de solidariedade das rotatórias serve para muitas coisas: conseguir trabalho, como explicou um dos entrevistados de Ruffin e Perret; ganhar coragem para enfrentar os momentos difíceis; descobrir a política. J’veux du soleil, em contrapartida, pouco fala da violência que vem pontuando as manifestações. Uma única cena, jubilatória: um trator arrombando o portão lateral do Palácio do Eliseu, em Paris. Mas o filme registra bem, isso sim, a agressividade do tom dos jornalistas em uma seqüência forte de imagens. Registra o teor pomposo de um discurso presidencial, assistido por Coletes Amarelos na tela de televisão instalada em uma rotatória. São cenas de uma violência simbólica extrema.

O ato I da mobilização dos Coletes Amarelos ocorreu em 17 de novembro de 2018 e as manifestações vêm sendo reconduzidas ininterruptamente, todos os sábados. O ato XVIII, o mais recente no momento em que escrevo, data de 16 de março. O estopim de tudo isso foi a decisão do governo de criar a TICPE (taxa interna de consumo sobre os produtos energéticos), com um impacto brutal sobre o preço dos combustíveis – produto de primeira necessidade nas zonas rurais e periurbanas, onde o transporte coletivo é raro ou inexistente. E apesar da decisão do governo em conceder uma moratória de seis meses sobre a medida, a mobilização se manteve. Para a classe política e parte significativa da imprensa, essa continuidade do movimento é intolerável. Esses segmentos parecem não entender que as rotatórias das estradas, ocupadas pelos Coletes Amarelos, tornaram-se, nesse meio tempo, espaços de sociabilidade para uma população que vive precariamente e que descobriu que o sofrimento individual de que padecia era parte de uma experiência coletiva.

Minha hipótese é que a violência policial que se abateu sobre as manifestações adveio de uma decisão política deliberada, como meio de fazê-las recuar. David Dufresne, que acaba de receber o grande prêmio dos Encontros do Jornalismo de Tours, criou no Twitter uma conta chamada “Allo Place Beauveau, é para registrar uma queixa” (Place Beauveau é o endereço do Ministério do Interior). A conta, seguida por 50.000 pessoas, passou a receber centenas de vídeos de internautas com cenas de violência policial filmadas durante as manifestações. Todos esses vídeos foram submetidos a um rigoroso trabalho de verificação. Durante três meses e meio, Dufresne recenseou 540 casos de ferimentos na cabeça, 23 pessoas com o olho destruído por tiro de flashball, 5 mãos arrancadas por granadas.

Além de tudo isso, há a enorme quantidade de telefones celulares propositalmente arrebentados – porque todo mundo filma todo mundo. A polícia filma os manifestantes e os manifestantes filmam a polícia. Até aqui, diz o jornalista, tínhamos uma visão puramente policial das manifestações. Agora, isso mudou. A tal ponto que Jérôme Rodrigues, uma das figuras identificadas dos Coletes Amarelos, filmou ao vivo, na manifestação de 26 de janeiro na Praça da Bastilha, o tiro de flashball que atingiu seu próprio olho. A polícia inicialmente tergiversou. Mas o inquérito concluiu que ele realmente havia sido ferido pelo disparo de um policial, no contexto de uma manifestação pacífica.

A pressão exercida sobre a França pela Europa e pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, presidida por Michelle Bachelet, suscitou uma verdadeira histeria coletiva nas redações dos jornais. Tratava-se de que o governo renunciasse ao uso do flashball na repressão às manifestações. Isso efetivamente ocorreu em 16 de março, durante o ato XVIII do movimento. Justamente nesse dia, a violência manifestante em Paris alcançou proporções espetaculares, com o incêndio do Fouquet’s, restaurante cult da elite rica. Essa violência não veio do movimento das rotatórias. Segundo estimativas do governo, algo em torno de 1500 black blocs, de diferentes partes da Europa, reuniram-se nesse dia em Paris. Eles praticam uma violência codificada, orientada para a destruição de símbolos do grande capital – daí o incêndio de um restaurante como o Fouquet’s, o incêndio de um banco e de vários quiosques de jornais – com a ideia (inócua) de impedir a circulação de uma imprensa escrita, pouco presente na paisagem urbana, e cada vez mais substituída por suas versões eletrônicas.

Há, no entanto, um ponto de convergência indiscutível entre os black blocs e o movimento dos Coletes Amarelos: ambos detestam a classe política e a democracia representativa. Essa característica é constante em uma série de lutas coletivas que vêm se sucedendo no cenário internacional. Desde aquelas que se articularam na virada do século XXI em Seattle ou Gênova e tinham na linha de mira os grandes órgãos estruturadores de um poder global (OMC, FMI, Banco Mundial) até os movimentos da “segunda onda”, apoiados na web 2.0, de 2010 e 2011 – a revolução islandesa, a Primavera Árabe, o movimento dos Indignados na Espanha, Occupy Wall Street – e mesmo 2013, no Brasil. No caso dos Coletes Amarelos, as tentativas de formação de partidos ou o surgimento de lideranças políticas como potenciais candidatos às eleições para o Parlamento Europeu, no próximo mês de maio, foram imediatamente rechaçadas no seio do movimento.

Experiências alternativas de exercício democrático, como as assembleias cidadãs, estão sendo experimentadas aqui e ali. O projeto de um senado cidadão formado por sorteio vem sendo discutido desde 2016. A ideia é que, sem uma reconfiguração da atual arquitetura institucional democrática, será impossível fazer a democracia avançar. Quero um pouco de sol, um pouco de felicidade na vida – tal é a reivindicação expressa pelos personagens de J’veux du soleil. Ela relembra o preceito do bem viver, presente na cultura quechua, cuja explicitação enquanto objetivo nacional na Constituição de 2008 foi pleiteada e obtida pelos povos originários equatorianos.

Sobre seu filme, François Ruffin declarou: “Quando um movimento se mantém entre o Natal e o Ano Novo, quando ele prossegue em janeiro, é porque há chance de que na primavera algo aconteça no país. Se um trabalho [como o do filme] não tivesse sido feito, a marca desse movimento excepcional da nossa história teria de ser buscada mais tarde através de BFMTV, de editorialistas e intelectuais de colarinho branco, que resumirão tudo isso a um movimento violento, de alcoólatras, ou mesmo de fascistas e anti-semitas.”

A primavera já chegou.

Veja abaixo. Extrato de J’veux du soleil:


Angelina Peralva é Professora emérita de sociologia, Universidade Toulouse Jean Jaurès. 

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