O começo


Inspirado nos últimos versos de um poema do livro de Gonçalves de Magalhães, “A Confederação dos Tamoyos”, de 1856, que relatam como teriam sido os momentos finais de vida do índio Aimberê, Rodolfo Amoedo pintou em Paris, onde se encontrava, o quadro “O Último Tamoio”, em 1883. Técnica: tinta a óleo sobre tela. Dimensões: 180,3 centímetros x 261,3 centímetros

Por Sergio Papi

A Lusitânia e a Galaécia, as dominaram romanos, como a todo o Mediterrâneo, espalhando o latim e sua cultura helênica, estoica, epicuriana e pirrônica, seu politeísmo, depois dito pagão pelos cristãos, por toda a sua borda. Quando decaiu Roma, essas colônias, também a mais a oeste da borda europeia do Mare Nostrum, em frente ao Grande Mar Ocidental, foram invadidas pelo interior, por vândalos e visigodos, germânicos que, afinal se latinizaram e adotaram o catolicismo.

Talvez seja aí que tudo tenha começado para nós brasileiros. Lusitânia e Galícia resistiram ao domínio dos bérberes islâmicos que vinham do sul, embora Lusitânia tenha adquirido aspectos da cultura islâmica e a Galícia, devido às invasões normandas, ainda politeístas que vinham do norte, da mesma forma tenha adquirido aspectos da cultura nórdica – e se fez reino cristão devoto a Roma, sob o nome de Portugal em 1139, com Afonso Henriques.

Veio a conquistar mais tarde aos mouros, os territórios mais ao sul da antiga Lusitânia, o Algarve, até a expulsão destes, definitiva em 1249. Ainda resistiu aos reinos espanhóis de Leão e Castela, assim se fazendo Portugal, que se tornaria uma potência náutica. Isso vai fazer com que tudo comece de fato para nós brasileiros.

Em 1417, em Sagres, por obra do entusiasta das conquistas além-mar, o Infante D. Henrique, que contratou navegadores, astrônomos e realizou as caravelas, símbolo tecnológico do impacto que a época produziu, pode Portugal e Europa lançarem-se ao Mar Ocidental, longa travessia.

Cabral, a mando do rei, antes de ir às Índias, acompanhado de experientes navegadores como Gaspar Lemos e Duarte Coelho, que já haviam estado no Brasil, visita oficialmente a porção do maciço, maior que qualquer ilha que se pudesse supor, e que cabia aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas, o litoral brasileiro, em 1500.

Dizem que é aí que tudo começou para nós brasileiros. Depois de Cabral, outras caravelas vieram, primeiras expedições a mando do rei. Deixaram as primeiras sujeiras da velha Europa em seu rastro pelo caminho do Mar Ocidental, desbravado pelo abnegado e visionário Colombo, que pouco de astronomia conhecia. Vespúcio sim, navegador e astrônomo, mapeou e deixou marcos nos cabos que fundeou.

Gonçalo Coelho veio em 1503 e trouxe às terras do Brasil o filho bastardo de Pero Jaques, de ascendência espanhola, mas tornado nobre por seus feitos por D. João II, antecessor do rei venturoso que governou pouco, e grande continuador da obra do Infante dos Descobrimentos, expandindo o império comercial português pelo mundo.

Cristóvão Jaques – Jaques na forma francesa ou latina, Jacó, nome de origem hebraica, mas de quem pouco se sabe e não há certeza que fosse um cristão novo, judeus convertidos ao cristianismo. Outro judeu, “convertido” – e Portugal estava cheio deles, que se estabeleceram na Península ibérica quando dos primeiros califados do Al Andaluz, 800 anos antes, foi João Ramalho, que havia naufragado na costa brasileira e integrou-se aos indígenas, casando-se com as filhas de todos os caciques Tupiniquins. Um dos pais de nosso DNA primal, Ramalho serviu de intérprete para novos portugueses que chegavam, entre eles Jaques, que combateu ferozmente os franceses de sul a norte da costa brasileira até 1519.

Acho que é aí que tudo começa para nós brasileiros. Quando regressou a Portugal, Jaques propôs um plano de ocupação com colonos, sob suas próprias expensas – era um homem de posses (fidalgo sim, mas judeu?).  rei não lhe deu atenção. Em 1526, de volta ao Brasil com três caravelas, fo nomeado governador de partes do Brasil por João III, que havia sucedid D. Manoel. Fundou fortalezas e feitorias nas fozes dos rios principais.

Enfrentando franceses, mas principalmente aos seus  aliados, os Tupinambás, que dominavam o litoral, comerciavam o pau- brasil com os franceses, por quem tinham preferência e estavam dispostos  a expulsar os portugueses do Brasil, organizando suas várias nações na Confederação, dita dos Tamoios.

Porém, quis a história, Clio essa ninfa greco-romana, tão caprichosa, que  ao lado dos portugueses, graças a João Ramalho, estivesse seu sogro  Tibiriçá e os Tupiniquins. A rivalidade ente as nações tupis foi útil à  ocupação dos portugueses, assim como a disputa entre Atahualpa e  Huascar foi útil aos espanhóis de Pizarro, no Peru.

A Guerra dos Tamoios,  segundo Capistrano de Abreu, decidiu que o Brasil seria português, com a  derrota Tupinambá, a morte heroica de Aimberê em Cabo Frio, retratada  em quadro romântico – pretensamente indigenista de Rodolfo Amoedo,  que o pôs nos braços de seu algoz Anchieta, agora feito santo por Roma, e com a expulsão dos franceses.

Será que não é aí que tudo começa para nós brasileiros?


Sergio Papi é escritor e pretensamente historiador.

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