Cego, por Sergio Papi

Depois de cometer os mais variados e terríveis crimes, eu, o famigerado criminoso cego, fui preso após assaltar uma loja das Casas Bahia. Fui reconhecido pelas vítimas e tive que confessar meus crimes na delegacia para me poupar de tapas na cara e outros modos desagradáveis da polícia. Posto na cela, na condição de preso em flagrante delito, ouvi com minha audição apurada as grades se fechando atrás de mim. Não pude reconhecer meus companheiros que deveriam estar me olhando – eu podia sentir, entre surpresos e indiferentes. Como diz o povo: aquilo era um encontro “às cegas”. Antes de me encaminharem à cela, o delegado me informou que eu tinha direito a um defensor público. Perguntei se por acaso não haveria um defensor cego que pudesse me defender, levando em conta a velha expressão “cego guiando cego”. O delegado, claro, não me levou a sério. Meus companheiros de cela estavam curiosos. Como, sem ver, eu conseguia praticar meus crimes, que não eram poucos, nem simples, pois até bancos eu já havia assaltado. “Em terra de cego, quem tem um olho é rei” foi minha resposta, pois o crime é uma área onde a mão de obra qualificada é escassa, e eu era uma pessoa qualificada, mesmo sem enxergar. Julgado e condenado, eu cumpriria minha pena. Na frente do juiz, não menti. Quando ele me perguntou se eu iria parar com a vida de crimes, disse resoluto: — não vou parar não, senhor, porque cadeia não faz ninguém “ver o lado bom” das coisas. Eu vivo disso e vou continuar fazendo isso. Se o senhor me conceder a liberdade, eu viajo para outro estado. Em meu depoimento, disse que a atividade criminosa é algo que vem do cérebro. O juiz, meio apiedado por causa da minha condição, além de admirado pela minha extrema sinceridade, deu-me a pena mais leve, porém insistindo que eu deveria abandonar aquelas atividades. Agradeci ao homem, pois sei que “mais vale ser cego dos olhos do que do coração”. Desde a antiguidade, a cegueira é vinculada com a tragédia e o desastre. Ficar preso é também uma forma de permanecer imerso na obscuridade perpétua, como que sepultado nas profundezas da terra. Se eu não era capaz de distinguir o dia da noite e não podia ver o céu, não me seria tão aflitiva a vida na prisão. Não vejo as cores nem as coisas. Não sei direito o que é ponte ou o que é rio, o que é montanha ou o que é céu. Isso sempre me incomodou um pouco, porque sei que as cores e as coisas existem. Meus companheiros me dizem que elas existem. As palavras são intermediárias entre o conhecer e o ver. Sendo cego, eu não tinha um mundo, era incorpóreo, desnudo, desprotegido, vagava em um espaço infinito, escuro. Se eu pudesse de repente enxergar e ser afetado pela visão vertiginosa das cores e das coisas, talvez sentisse um imenso terror diante do desafio extremo de poder ver. “O pior cego é aquele que não quer ver”. Na prisão nunca me senti “mais perdido do que cego em tiroteio”. A cegueira sempre exigiu de mim uma adaptação, um ajustamento, uma reorganização, ou melhor, uma reprogramação. Sempre representou uma demanda especial na minha vida para que eu pudesse sobreviver. Como cego, me tornei uma espécie de vidente. Quando ganhei a liberdade, não me senti como saindo das trevas para a luz. Que luz, se eu era cego? Preso à minha condição vaguei por muito tempo até me adaptar à vida livre. E ninguém supunha que eu era um criminoso, ex-presidiário. Tinha passe livre devido à minha deficiência e em uma viagem conheci alguém que gostou de mim. É como dizem: “o amor é cego”.


Sergio Papi é escritor e artista plástico.

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