Novíssimas cartas portuguesas – Vozes da masmorra

Por Liu Sai Yam

Diário de José Maria Passos do Martírio, ora trancafiado sob regime de Solitária no Instituto Correcional do distrito provincial de Vila das Hortênsias, em aprazível vale às margens da bacia do Minho e nacionalmente reputada como a “Flor do Minho”.

Cá estamos nós, uns com disposição mais estoica que outros, a resgatar o débito que nesta vida contraímos perante a sociedade ordeira, respeitadora do patrimônio alheio e temente a Deus Todo Poderoso; que houve por bem, e mediante a mão forte do aparelho judiciário do Estado, apartar as ovelhas desgarradas do aprisco dos produtivos cultores do bem fazer.

Em assim sendo, pago, juntamente com os demais pecadores sociais, a parcela que me cabe neste latifúndio de haveres e deveres. Pago sem queixumes nem rancores, em impávida resignação a me resgatar, nesta cela solitária, um ínfimo resquício de dignidade humana.

Esta cela solitária que no momento encontra-se em estado de superlotação, devido aos inúmeros punidos a causa da rebelião de abril próximo passado, durante o convescote- churrascada em homenagem ao Dia Internacional do Vegetarianismo. Estamos, por conseguinte, espremidos e empilhados, enquanto nos revezamos junto ao privilegiado posto, a minúscula abertura que faz o Sol nascer retangular e de onde podemos aspirar um tantinho do olor de rosas e jacintos, que são o produto principal deste Vale das Hortênsias.

Como se não bastasse tamanha aglomeração, meteu-se cá dentro também o carcereiro Mateus, entretido em intermináveis partidas de víspora com alguns sicilianos, ora a cumprir pena neste instituto prisional, em saudável programa de intercâmbio europeu de facínoras, a favorecer a indústria do turismo, por atrair visitantes, familiares e rábulas de outras nações e a promover a economia local, concomitantemente a ricas trocas culturais.

Mateus é figura ímpar, além de péssimo jogador de víspora. Os sicilianos estão a esfolá-lo, com método e paciência. Já lhe tomaram quepe, carabina, cartucheira e pistola. Encontra-se, neste exato momento, apostando as balas e sua situação está mal parada. Há dois meses, apostou e perdeu o molho de chaves das celas. Um siciliano, famigerado plagiário chamado Elias Canetti, foi de imediato ao povoado e tirou cópias das chaves, que anda agora a negociar em troca de tabaco cubano e versos alexandrinos. Eu mesmo, ao preço de meia dezena de quadras satíricas em rima semirrica, obtive a cobiçada chave do banheiro do diretor-geral, onde posso exercitar sodomia solitária, enquanto dou vazão a meus dotes de razoável barítono.

Ensaiamos uma fuga em massa (enquanto distraíamos Mateus com uma Tocatta em Lá Menor) utilizando as chaves do portão principal, até nos deparamos com situação de irreparável crise econômica. Tivemos que emprestar dinheiro a aldeões minhotos e roupas a refugiados tunisianos. Alguns estudantes acampados em uma praça, portando cartazes de protesto, nos cercaram e nos tomaram mantimentos, entre salsichões trasmontanos e bagaceira coimbrã. Aos sicilianos surrupiaram os telefones móveis que haviam ganhado ao modo trapaceiro de Mateus. Enfim, prejuízo total e fuga frustrada. No descampado invernal do Vale do Minho, fomos acossados por um bando de raparigas galegas (ou clones de Fred Mercury… Os bigodes nos confundiram um pouco) que nos submeteram a sexo forçado mediante ameaça de tabefes à galega e castração in natura. Jonas, Pierre e Serafim optaram pela castração. Penso agora que foram sábios, uma vez que meu aparato másculo anda a derramar um líquido esverdeado e fosforescente que se assemelha bastante a zircônio enriquecido. Ora, pois…

Dessa tentativa de fuga, extraímos preciosos ensinamentos. Um: Nenhum ser escapa de si mesmo. Dois: O mundo além desses muros está que virou merdalha só. Três: Prisão é hoje dos escassos lugares onde ainda está a vicejar alguma segurança.

O cárcere de um homem é o seu castelo. Ergam logo a ponte levadiça.


Liu Sai Yam é escritor.

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