Praga de mãe do Antonio Marcos Soldera

Todo dia ao acordar, travo uma batalha comigo mesmo: acender, ou não, o primeiro cigarro? A guerra, porém, dura uns dois minutos, e quem perde sempre é a minha caixa de catarro, que mal recomposta da madrugada boêmia, tem de suportar mais uma terrível dose da letal fumaça.

E é na cama, em meio à fumaça do primeiro cigarro, que vejo o rosto e o corpo nu de Arlete. Nova batalha se trava dentro de mim. Esquecê-la, ou continuar grudado nesta mulherzinha de cabaré, prostitutazinha reles que faz sexo explícito em filmes pornôs?

O primeiro acesso de tosse do dia me leva à latrina fedorenta do apartamento mofado. Tusso até quase vomitar. E com o escarro tenho vontade de pôr Arlete pra fora de mim. Mas ela é praga de mãe, não sai assim facilmente.

Quando a tosse pára, arrasto-me até a cozinha do moquifo atrás do meu café da manhã. Ponho meio copo de cachaça vagabunda e mando pra baixo. Aquilo, com o estômago vazio, desce que desce rasgando, como se fosse o fio de uma navalha.

Só então tomo um banho gelado, pra ver se essa eterna ressaca abandona um pouco o meu corpo. Mas não adianta. Já estou mesmo um bagaço.

No quarto, enquanto me troco, volta a ideia de esquecer Arlete, de fazer de conta que ela morreu, ou que está com Aids. Tudo besteira. No fim, eu acabo é dando um beijo no cartaz da última fita que ela fez com o pessoal da Boca. Espremo contra a parede o durex de um dos cantos que teima em desgrudar e saio, para pegar a boia no boteco imundo do Espanhol.

Oito e meia, assumo meu posto atrás do balcão do inferninho e fico vendo Arlete rebolar as ancas pros outros machos. E torço pra que ninguém se interesse por ela até de madrugada. Assim, quem sabe, eu possa dormir com ela num hoteleco qualquer.

(Histórias da Boca / Notícias Populares / São Paulo  13-10-1985)

Antonio Marcos Soldera é jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Cásper Líbero em 1978. 
Em 1983, entrou para o jornal Diário de Sorocaba, onde começou como correspondente regional por Boituva.
De 1984 a 1989, foi repórter na editoria de polícia de Notícias Populares. De 1986 a 1988, foi ao mesmo tempo repórter do NP e redator do Diário do Comércio, jornal da Associação Comercial de São Paulo.
Foi repórter especial do jornal diário Cruzeiro do Sul, de Sorocaba/SP, em 1994.
Atuou por quatro anos (1994-1998) no Secovi-SP, Sindicato da Habitação, onde foi redator, repórter e subeditor da revista mensal da entidade.
É fundador e diretor da Maio Editorial e do blog Notícias Populares, uma homenagem à publicação.

Um comentário em “Praga de mãe do Antonio Marcos Soldera

  • 15 de março de 2019 em 22:43
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    Belíssima crônica, saudades dos bons escritores.

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