Paqui Tierra – Autobiografia não-autorizada

Paqui Tierra é allter ego, ou ega como queiram. O Autor, anonimo até aqui, diz que sempre gostou de alter egos, e muito mais de escrever no feminino, que misteriosamente lhe teria facilitado a expressão mais livre e “debochada”. Freud ou Rogéria explicam, Haha!

Choses de la vie pra exorcizar dia dos mortos.

Nasci, melhor dizendo, estreei, ainda melhor dizendo, iniciei carreira solo após nove meses de ensaios, sempre ao risco de ver a grande- première abortada por dificuldades de patrocínio, desentendimento entre os autores e revisão das prioridades. O produtor, que no fim é o que tem a palavra final, pelo menos naquela época e naquela localidade geográfica, decidiu afinal bancar o espetáculo, apesar dos riscos, em exemplar demonstração de quixotesco amor à arte que sempre caracterizou os mecenas irresponsáveis, nascidos no peculiar estado da Pindaíba.

Entonces, vim, carregando a minha nudez, o meu grito, atuando formidavelmente a despeito da decepção com o público presente; e me recordo de haver pensado assim que por que esse frio? por que a luz ofuscante? por que essa fome, essa sede, esse desconforto, esse palavreado ao meu redor? Ainda assim, me mantive firme e atuei de acordo com o contratado e ensaiado e penso até não me ter saído mal, já que se não fui ovacionada, tampouco vaiaram e muito menos pediram o grana do ingresso de volta.

Naqueles idos tempos conturbados não havia aparatos refinados de sustentabilidade neonatal ou pós-natal (que a tecnologia oferece hoje em dia à população mundial, desde as incubadoras high tech de Helsinque até as choças climatizadas de Mogadício). Paqui Tierra decidiu, então, após um ano de espera, pelo que me tocaria em luxos e regalias, adquirir uma pneumonia bem coadjuvada por cenográfica diarréia desidratatória non-desideratum. Finalmente me dariam o devido valor!

Entre a cruz e a espada, eu diria, que coloquei no peito dos responsáveis pelo meu existir, fiz com que todos concentrassem energias em favor da minha sobre-existência, requerendo atenção total nos dias e nas noites daqueles lancinantes meses em que desesperadamente me tentaram convencer da essencialidade de eu permanecer entre eles. Em consideração a tais e tantos empenhos, resolvi lhes dizer que ficava e fiquei, desde que me coubesse a melhor parte dos precários mantimentos alimentícios e o pronto atendimento aos meus mínimos desejos.

Depois desse evento crucial, não cabe entediar ninguém com descrições de ruas e casas, nem façanhas comuns a qualquer um que possa alegar ter experimentado algo similar a infância, que a uns terá sido deleitoso e a outros, medonho. O de Paqui Tierra, que vos falo escrevendo, ficou no meio caminho entre o delituoso e o instrutivo, até ilustrativo, no sentido cosmopolita, já que me espocam flashbacks de baús de viagem, cais de porto, táxis abarrotados, ruas estranhas e casas vazias. Diria eu, Paqui, que foram muitas viagens e muitas mais mudanças de endereço e diria ainda que não me trouxeram incômodos marcantes, senão no aspecto infanto-social de dissolver e refazer amizades (e inimizades, por que não?) que acarretam, sim, algum empenho emocional em idade quando todos os vínculos são “pra toda a vida” e todo novo contato é incógnita.

De memoráveis, apenas recordações de peripécias de alto risco, como da vez em que esta Paqui encantou-se da notícia de uma aeronave yanqui que executava voos cegos nas trevas da noite, orientada somente por radar, e achou de reproduzir o voo em terra batida, disparando de olhos fechados pela rua até uma falha no radar me fazer abalroada pela traseira da caçamba de um caminhão estacionado em alta velocidade, traseira contra a qual impactei a testa a milímetros de umas barras de ferro que sobressaíam da guarda traseira, e que se estivessem um tantinho mais deslocadas teriam feito esta Paqui voar cega pelo resto de uma vida sem cores. De outra feita, em que os freios da minha Monark aro 20 resolveram falecer bem no meio da ladeira íngreme onde eu disputava renhida corrida contra o relógio, me fazendo atravessar duas travessas transversais e uma avenida de duas pistas, contando apenas com o guidão e o divino protetor dos desajuizados em fazer esta Paqui estatelar-se incólume contra a parede dos fundos do corredor de uma residência, cujo portão escancarei sem bater, arrebentando trinco e fechadura, antes de espalhar balde, floreiras e cachorros por todo o trajeto.

Disso tudo, desses incidentes algo traumáticos, extraí a lição permanente e verdadeira de ser possuidora do notável dom da imortalidade e que o Todo Poderoso tem por mim um zelo em todo prioritário, por mais que o contrarie, por mais que o desafie, no decorrer de uma vida blasfema e viciosa. A Doriana Gray de Paqui segue viçosa na parede a exibir cores explosivas de juventude e desejo, enquanto esta Paqui encarnada definha em dores musculares, falhas de visão e sequelas dos hábitos insalubres; e isto ao menos uma certeza me dá: a de que Paqui Tierra viverá pra sempre. Mesmo sofrendo o efeito devastador do tempo ou curtindo padecimentos e arrependimentos de espírito, esta Paqui sobreviverá até restarmos eu e Este Deus que me escolheu por protótipo da nova espécie anômala, nômade, insatisfeita, resistente às euforias, às desilusões e até mesmo ao livre arbítrio.

Me acusam dos crimes de egoísmo e irresponsabilidade. A defesa de Paqui será convocar o testemunho dos vivos e mortos que ofereceram de bom grado suas energias e suas reservas de mantimentos pra assegurar a minha permanência neste planeta que nem considero assim tão aprazível (pudesse escolher, escolheria Saturno ou Mercúrio). Fato é que se fui preservada de enfermidades letais e acidentes fatais, algum propósito terá, já que Deus não conhece as regras da roleta. A autobiografia nem começou e o espaço já se acabou; o que comprova que até mesmo pra Paqui Tierra algum limite existe. Não, não existe. Simplesmente paro porque quero. E nada mais escreverei a partir de agor



Paqui Tierra é

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