Poemas de Aguinaldo Gonçalves

A VOZ DO POEMA

O poema são raios em vitrais 
Partidos ao pôr do sol
Intenso sol 
Vasto sol ígneo sol gípseo sol
Aplicado sobre o lençol 
Da folha branca
Com fios ebóreos de luz mortal
Impura. 
Textura de relevo sem nervuras
O poema não diz, 
Nem engana o tom da forma
Não busque no poema
A norma voraz da desgraça
Sua fraqueza torpe 
Sua miséria.

No poema 
É a imagem que reluz.

 

––– Ψ ––– 

 

EMBALSAMEI COM ESTAS MÃOS

Cascalhos incrustados em húmus,
Folhas secas de Outono, 
Recém caídas, 
E outros resíduos de rochas 
de tempos idos. 
Embalsamei também um ritmo
Muito antigo
Que dançava dentro de um verso 
No reverso
Como o inferno de Rimbaud
Ou como a voz de Homero ecoando
Em Ilíada
Frigida forma de um cantar antigo
Que agora vive nesta forma
De ser mudo.
Embalsamei tudo
Mas não esta voz ignota
Este ritmo,
nem o silêncio
Que o éter não absorve
Nem absorve os fios de versos
Que não foram feitos.
Embalsamei o ritmo do silêncio
E surdo sobrevivi.
Com voz lirica
Cantarei o épico 
Epopeia de um herói ausente
Que se assusta 
Com o som da lira
De seu próprio canto. 

 

––– Ψ ––– 

 

O MUNDO NA FORMA

quebra o sempre 
na busca de uma paródia muito antiga.

lá, no onde do fundo
o mundo se copia em forma de verso:
mundo-verso verde-musgo 
o branco da areia se espraia
( mundo fundo mundo). 
No espelho, o mundo se esfacela
e nem mesmo a si desvela. 
¬No azul-petróleo bem profundo, 
nasce o mundo ___ amarelo. 
E ao volver-se em si no si e por si
Mesmo — gira
vira verso no sempre e o sempre do mesmo
por onde o quando se engastalha
o volver-se no engate desta falha
em vão em vão em vão
nessa malha se atrela a manobra destes versos
neles a vida sobra 
do estado de ser diante dela
revela 
do si em tudo
revolver-se em cada esfera
com a mesma gana 
engana no espaço
o tempo que espera. 

 

 

––– Ψ –––

 

RANHURAS

rasuro nestes versos
o anti-verso dos sentidos
risco cada fonema
que plasmaria em linha reta
ranhurando o que aqui pontilho
nestes trilhos descarrilhados
de passos embaçados
trôpegos
de tanto ver
de tanto ter
no esfaimado verso
a gula
pelo resto de cal nesta alquimia
de ritmo vagabundo
que morde o mundo
fere o tempo
e rasga a carne
sem sossego
comendo
até o osso do cadáver-poema
tornado pó em som fecundo.

 

 

 

––– Ψ –––

 

POÇO DE SILÊNCIO

Fosso contido nesses versos moucos
Tornados tensos
Em solavancos claudicantes
aonde o ser em si vagueia
Sem ter para onde ir
Quase caracol
quase caracol
Mas o último fio
Se contém vazio, oco,
Circundado por fósseis perdidos
Na quase busca
De um começo sem retorno
Poço de silêncio
Do qual conchas
De prazer são extraídas
formas sem eira nem beira
são contidas
Vasculho nessas formas
O marrom de terra funda
Em cada verso
Ressoa um grito azul-anil
(Círculo de luz)
Eco da forma
De uma claridade
Que reluz
No marrom da terra
Rouca terra
em que o peso do silencio
Preenche os intervalos
Vazios da esperança.




Aguinaldo Gonçalves é poeta, mora em São José do Rio Preto.
Estudou na instituição de ensino Universidade de São Paulo.

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