Horas de sono

Vítor Ishikawa é escritor.

Percebi que havia algo diferente no apartamento assim que entrei. Alguém estava ali – e, bem, como eu moro sozinho e não me lembro de ter recebido visitas, uma pessoa que não deveria estar. Em qualquer situação semelhante, o precavido ser humano médio faria uma ou duas ligações (alô, 190?) ou, no mínimo, deixaria um aviso a algum amigo, para o caso de ser um invasor ou um homicida. Neste momento, minhas suposições se afastam das possibilidades mais comuns e, influenciado pelos eventos anteriores, que tanto me assombram, fechei a porta de entrada e segui para meu quarto. No caminho, desliguei as luzes da cozinha, do banheiro e do quarto de visitantes. Antes de sair, eu as havia desligado. A porta do meu quarto estava fechada. Sem sinal de iluminação lá dentro.

Abri a porta com cuidado. Fiz dois movimentos rápidos com a mão, como se estivesse chacoalhando um controle remoto com pilhas fracas, e meu celular ativou a lanterna. Iluminei minha cama. Paralisei. Meu coração começou a pulsar em ondas intensas, uma forte sensação de ser observado e alvo de um animal grotesco se apoderou de mim. Recuei dois passos. Confirmei minhas hipóteses. Encontrei-me a mim mesmo deitado, embaixo de meus cobertores. O pijama branco com listras azuis, os cabelos escuros e lisos, o nariz característico. Respirei fundo e refleti por um momento. O que fazer?

Tudo aquilo começara depois de uma prova de Direito Civil – ou melhor, do que ocorreu antes que eu a fizesse. Por conta da semana turbulenta e das outras provas, decidi não dormir na noite anterior à prova para dominar o conteúdo que seria cobrado. Como havia uma pilha de material e dezenas de artigos do Código Civil, comecei às 18h e, parando em intervalos afastados para comer e ir ao banheiro, segui direto para a universidade, às 07h30, com um copo grande de café com leite em mãos. Ainda assisti às aulas seguintes, visto que não sentia sono, falta de concentração ou qualquer outra consequência das horas sem dormir. Aproveitei, então, o dia (era uma terça-feira) para estudar para a prova da semana seguinte – a de Direito Administrativo – e me deitei no horário de sempre, às 22h30.

Acordei na manhã da quinta-feira, às 07h. Havia dormido, portanto, por aproximadamente 32h e 30 minutos. No celular, muitas mensagens da família e dos amigos, preocupados com meu desaparecimento. Respondi-os rapidamente e imaginei que eles entenderiam minha resposta como mera desculpa, uma invenção, e passariam a desconfiar do que eu poderia ter feito nesse tempo, bem como dos motivos pelos quais não respondi ninguém. Com o tempo, passaram a acreditar nas minhas explicações e o fato se tornou uma piada conhecida e bastante repetida.

No domingo daquela semana, minha avó, que chegara na sexta e ficaria até aquele dia em casa, acabara de sair e eu decidi cochilar um pouco, aproveitar a tarde tranquila.Quando acordei, ouvi o barulho do chuveiro ligado. Saí do quarto e chamei a vó, pensando que ela havia mudado de ideia e voltado, mas não houve respostas. Não encontrei suas malas e sacolas quarto de visitas. Resolvi esperar quem quer que fosse sair do banheiro e me sentei no sofá da sala, no final do corredor entre o quarto e a sala.

Depois de um tempo, ouvi o chuveiro sendo desligado e, finalmente, a porta se abriu. E eu mesmo saí, de toalha e peito nu, entrei no quarto e fechei a porta, não me percebendo ali, chocado, sentado no sofá. Foi a primeira vez que eu o vi, o que ou quem quer que seja. Talvez fosse eu, talvez não. Pensei que era uma ilusão, um momento de loucura criado pelo meu cansaço e pelo efeito das seguidas e exageradas horas de sono, um sonho estranho. Demorei um tempo para decidir verificar se havia alguém no quarto. Girei, com cuidado, a maçaneta, e espiei o interior do cômodo. Ninguém. Incomodado e atordoado, preferi deixar pra lá, culpando-me e me prometendo diminuir o ritmo.

Uma semana depois, ao chegar no térreo do prédio depois de uma compra na padaria, chamei o elevador e, de modo habitual, olhei para o monitor que mostrava as filmagens das câmeras do condomínio. Lá estava eu, esperando para subir, com duas sacolas brancas em cada mão. Num quadro ao lado, eu estava em pé, com minha bolsa preta nas costas e uma sacola amarela, dentro do elevador, que parou, abriu a porta e me permitiu sair. Em seguida, fechou-a e desceu. Quando se abriu novamente, eu ainda encarava, incrédulo, a imagem da câmara do elevador. Podia me ver, naquele momento, tanto por ela quanto pela imagem do térreo, em frente à entrada. Mas houve alguns segundos em que dois eus estavam ali, em dois quadrados diferentes, em dois lugares. Agora, um único, em duas imagens. Quando cheguei ao apartamento, não havia sinal de outra pessoa, nem de outras sacolas.

Eu tinha certeza que era eu mesmo. O jeito de andar, de se mexer, as roupas, os óculos, a fisionomia. Sinceramente, eu me conhecia – conhecer alguém implica, penso eu, na capacidade de um indivíduo reconhecer um outro que tenha suas silhuetas e feições escondidas por uma densa névoa. Se consigo distinguir um velho amigo mesmo de costas, a metros de distância, em uma numerosa multidão, é porque tanto me acostumei com sua presença que meu cérebro identifica com perfeição os padrões de comportamento e trejeitos. E lá eu me encontrava: acompanhando um reflexo familiar perambulando por aí.

Não contei para ninguém, nem para os mais íntimos. Achariam que eu estaria maluco, no mínimo. Não acreditariam em mim. A melhor opção foi, então, aceitar os fatos e evitar descobrir o que era aquilo. Se fosse eu, como a aparência me dizia, não haveria de me fazer mal. Tolo engano. A curiosidade me atiçava, provocava crises existenciais e de ansiedade. O que era aquele ser, que imita minha aparência e minhas ações? Confesso que, no ápice de meu ateísmo teimoso, inclinei-me favoravelmente à capacidade de explicação de religiões, lendas urbanas e outros. Não fui capaz de descobrir quem ou que era aquilo.

Até agora. Eu iria descobrir.

Retornei ao quarto, resoluto e inabalável. Eu ainda estava lá. Munido do celular com a lanterna, me aproximei e analisei meus próprios traços – a paralisia facial, que se projeta por meio da assimetria do rosto, era inconfundível, bem como a pinta no lóbulo da orelha e o olho esquerdo com uma pequena brecha aberta. As dúvidas quanto a minha identidade se esgotaram, apesar de ser impensável, impossível, ter outro eu ali à minha frente. Resolvi, assim, encará-lo.

Cutuquei-me uma, duas, três vezes. Sem resposta. 

Continuava imóvel, em um sono profundo, quase hipnotizado. Segurei meus ombros e os sacudi. Ordenei que acordasse, levantasse, respeitando o bom uso das interjeições. Até que percebi um detalhe facial que eu ainda não havia notado em mim mesmo: entre os olhos e um pouco abaixo da sobrancelha, parecia haver um chiclete vermelho todo mastigado grudado ali. Alinhei meus olhos com meus olhos, de maneira que ficássemos perfeitamente cara a cara, para analisar melhor. A luz não ajudava. Cheguei mais perto.

Os olhos se abriram.

Não consegui ver mais nada. Só escuridão.

Senti mãos agarrando meus braços e me puxando para frente, em sua direção.

Eu estava sendo sugado, como se alguém tivesse me dado descarga, em direção ao nada.

A imagem de seu rosto estava paralisada à minha frente, uma foto tirada antes da escuridão.

Ele sorrira assim que abriu os olhos. Era um sorriso igual ao meu.

Mas seus dentes não eram.


Vítor Ishikawa é escritor. Mora em Maringá e estuda na
Universidade Estadual de Maringá .

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