Uma pilha de pneus na velha borracharia – Mário Bortolotto

Teve um tempo que eu trabalhei numa borracharia. É verdade. Meu pai vivia tentando arrumar algum emprego pra mim. Ele não me queria em casa o dia inteiro lendo e tentando escrever. Não via nenhum futuro nisso. Então ele me arrumava trabalho. Teve uma época que ele entrou de sociedade numa borracharia de um amigo dele e me colocou lá pra trabalhar. Eu não tinha muita utilidade naquele lugar. Ficava o tempo todo conversando com o cara, admirando os calendários de mulher pelada na parede e de vez em quando calibrava algum pneu. Durou menos que duas semanas. Eu caí fora dali. Então o meu pai me arrumou um outro emprego. Era na Construtora Plaenge. Eles me mandaram pra Apucarana, uma cidade à uns 150 Km de Londrina. O meu trabalho era simples. Eu tinha que distribuir as ferramentas de manhã para os funcionários e no final do dia recolhe-las e contar o material que chegava tipo conferir se o número de tijolos que eram entregues batiam com a nota. Era um emprego fácil, mas enfadonho pra um garoto de 19 anos. E tinha um problema maior ainda: Eu ficava preso na construção durante a semana inteira, sobrando apenas o final de semana pra ir até a cidade. Caralho, eu tinha 19 anos. Eu queria encontrar garotas e não passar a semana inteira com uma porrada de marmanjos numa construção. Eu aguentei dois dias. No segundo dia comuniquei que ia embora. Peguei minhas coisas, fui pra estrada e peguei uma carona de caminhão de volta pra Londrina. Quando o meu pai chegou e me viu de volta quis partir pra cima de mim. Minha mãe gritava, minha irmãzinha chorava e eu deixei claro que ele podia vir, que eu até sabia que ia levar porrada, mas que eu ia revidar. Ele desistiu e eu tive que ir embora de casa. Vim pra São Paulo e arrumei um emprego numa fábrica de tintas em Santo Amaro. Era outro emprego de merda, mas eu jogava no time de futebol na fábrica e a rapaziada gostava de contar comigo no time. E foi só isso que me manteve lá por seis meses. Voltei pra Londrina e consegui um emprego num supermercado. Outra merda. Preenchi a ficha pra repositor que é o sujeito que remarca os preços e repõe a mercadoria. Eles gostaram da minha ficha e me colocaram no escritório. Eu ficava mandando telex, preenchendo fichas de funcionários e fazia uns trampos de office-boy que era o que eu mais gostava. Saía pra pagar algumas contas e ficava o dia inteiro na rua olhando os cartazes de cinema ou os macacos no bosque. Aí quando voltava ficava falando bobagens pras garotas da hortifrúti. Até namorei um pouco uma menina que servia café. Depois voltava de Caloi 10 pra casa que era a parte do dia que eu mais gostava. Voltar pra casa de bicicleta do centro até o Jardim do Sol. Esse emprego também durou seis meses. Eles tinham planos pra mim. Queriam me promover, me mandar pra ser gerente de alguma filial em outra cidade, esse tipo de merda. Eu não queria nada disso. Eu queria ser mandado embora, mas eles pareciam gostar de mim. Então eles tinham essas camisas horríveis que eles obrigavam os funcionários a usarem e ainda tinha que usar a camisa por dentro da calça. Eu usava a camisa aberta pra fora da calça e com uma camiseta de rock por baixo e eles odiavam isso. Viviam me repreendendo. Eu tava cagando. Essas camisas eram distribuídas pros funcionários e descontadas dos seus salários. Eu tinha acesso à lista de demissões. Então uma garota subiu pra pegar sua camisa. Eu falei: “Não pega não”. E ela: “Por quê?” Respondi: “Eles vão te demitir. Teu nome tá na lista. O que você vai fazer com essa camisa horrível? Vai ser garota propaganda dessa merda de supermercado?” Ela desceu as escadas chorando e foi reclamar com seu encarregado. O cara subiu a fim de tocar o terror comigo: “QUEM VOCÊ PÉNSA QUE É? PORQUE FOI FALAR AQUILO PRA ELA?” Eu respondi calmamente: “Porque é verdade. Ela vai ser demitida. E você sabe disso”. Ele ficou puto e foi reclamar com o gerente que me disse que apesar de gostar de mim, ia ter que me demitir. Eu então perguntei: “Aviso prévio ou demissão imediata?” Eles me deram aviso prévio. Ainda fiquei um mês passeando pelo supermercado enquanto todos trabalhavam aflitos tentando manter os seus empregos. Então voltei pra São Paulo e consegui um emprego como auxiliar de escritório numa imobiliária. Eu tinha sorte. A minha chefe gostava de mim. Era a Dona Alzira, uma senhora muito simpática. Eu sempre inventava alguma coisa tipo: “Dona Alzira, eu preciso cortar o cabelo. Não deu tempo de ir na hora do almoço” E ela sempre bondosa dizia: “Vai agora, meu filho. Eu falo pro Seu Álvaro (o dono da imobiliária) que você foi fazer algum serviço de rua”. Eu saía e ia andar pela Galeria do Rock. Ela nem notava que eu não cortava o cabelo. Ou fazia de conta que não notava. No último mês eu queria que me demitissem e pra variar eles não queriam. Eu apelava. Entrava no escritório com um Hemingway debaixo do braço, colocava em cima da mesa e simplesmente ficava lendo. Li todos os Hemingways nessa época e todos os Henry Millers também. Seu Álvaro passava por mim e não falava nada. Mas depois de um mês ele não aguentou tamanha folga e me mandou embora. Então saí dali e decidi que nunca mais ia trabalhar num emprego comum. Que ia ser dono do meu destino e que os pneus na borracharia que permanecessem empilhados. Eu não tinha nada a ver com isso. Voltei pra Londrina e comecei a viver de verdade. E paguei o preço por isso. A gente sempre paga um preço por viver de verdade. Me juntei a um grupo de amigos e fomos dividir uma república no Zerão, a gente passava fome, mas ninguém trabalhava num emprego normal. Eu passava o dia lendo e tocando guitarra. Algumas garotas frequentavam a nossa casa e traziam pão e vinho pra gente. O resto era arroz com vinagre. Mas enfim eu comecei a gostar da minha vida. Ela tava só começando. Eu ainda não sabia direito o que ia acontecer comigo. Mas eu já sabia o que não ia acontecer. Eu nunca reclamei. Às vezes a vida me parece muito triste e eu fico parado na janela olhando pra rua com um peso filha da puta no coração. Então eu olho alguma foto antiga e vejo aquele garoto magrelo que um dia teve um sonho que era de viver da maneira que escolheu e de não deixar que ninguém influenciasse no seu destino. Então eu percebo que tenho enfim alguma coisa. E o meu coração fica leve de novo, como se estivem tocando “Is this love” no apartamento vizinho. E eu sei que de uns tempos pra cá ando muito mais triste e que só consigo escrever uns versos de gosto duvidoso pra algumas músicas sem esperança. Mas mesmo assim sei também que de um jeito ou de outro eu não me entreguei. E acho que eu sabia que ia ser assim desde aquelas tardes na borracharia do amigo do meu pai achando tudo aquilo extremamente desnecessário. E às vezes simplesmente penso que é uma espécie de milagre. Acho que é isso que chamam de ainda se sentir vivo. Eu me sinto. O sorriso daquele garoto ainda volta a aparecer no meu rosto. E sempre foi tudo verdade. Acho que eu sempre soube disso.

Mário Bortolotto é um ator, diretor, dramaturgo, escritor e compositor brasileiro.

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