Homenzinho da ventania

Na entrevista ao famoso órgão de imprensa impôs com sua fala pausada, o tom da conversa. Naquele ninho de cobras, seu cavalinho manso andou a trote. Era mania adquirida, vício ou aquilo já nasceu com ele? O tom de voz nunca se alterava. As frases pareciam pensadas e, no entanto fluíam espontâneas. Nenhum arroubo mais entusiasmado, nenhum pesar por lembranças.

Queixou-se de ter que trabalhar muito para ganhar apenas o suficiente. Discorreu sobre uma prospecção da “polícia” financeira para preparar o ano 2000, que ele qualificou como “demagogia tecnológica”. Os anos 70 já eram tardios para ele. Perguntado sobre sua preferência, Pelé ou Garrincha, não titubeou: – Fico com Mané! O apelo às criancinhas quando do milésimo gol do Rei.

Falou mal do Nélson, o chamou de recalcado. Ele tinha essa coragem serena de iconoclasta, anjo inteligente. Falou de suas experiências com ácido. Tinha lido o Huxley e estava sendo monitorado pelo amigo psiquiatra, o Pellegrino. O pai de família, homenzinho da ventania, o singular comum que fazia transparecer em suas crônicas, viajava contra as normas da sociedade, sempre sóbrio.

O ácido, um aprendizado, mais um naquela altura de sua vida. Lembrou-se da infância, sua infância-texto, a explicação das aves que o comiam e nada mais. O demônio é também muito importante. Para contentamento de Tarso e Maciel seria moleza editar a gravação. O Tarso saiu com invejinha. O cara tinha tido um caso com Clarice. Ivan viu os dois.

  • Essa crônica é baseada na entrevista concedida a’O Pasquim em 1971, pelo escritor Paulo Mendes Campos.

Sergio Papi é consultor do Rapsódia Brasileira

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